Por Josi Bittencourt
A pequena Ana, de 7 anos, chega à unidade escolar e em meio a atividade na quadra deita sob a mochila e dorme. Questionada, ela diz apenas que está cansada e com sono.
Este é um relato real de uma criança que frequenta uma unidade determinada como educação em período integral em Caraguatatuba, no Litoral Norte de São Paulo. O relato da Ana, levanta um questionamento bastante importante em relação ao extenso período em que as crianças permanecem nas unidades escolares.
Sabemos perfeitamente que a educação em tempo integral vem sendo apresentada como uma solução moderna para melhorar o desempenho escolar, ampliar oportunidades e oferecer mais segurança às famílias. E, de fato, quando bem estruturada, ela pode transformar vidas.
O problema começa quando ampliamos o tempo da criança dentro da escola sem ampliar, na mesma proporção, o cuidado humano, emocional e pedagógico necessário para sustentar essa permanência.
A pergunta que começa a preocupar especialistas é simples: nossas escolas estão realmente preparadas para acolher emocionalmente essas crianças durante todo esse tempo?
Pesquisadores da neuropsicologia infantil alertam que crianças entre 7 e 9 anos ainda estão em intenso processo de desenvolvimento cognitivo.
Nessa fase, o cérebro precisa alternar aprendizado, descanso, movimento, criatividade e convivência saudável e o problema é que muitas escolas de tempo integral o contraturno não oferece estrutura adequada, atividades diversificadas ou equipes especializadas capazes de acompanhar o desenvolvimento socioemocional das crianças.
E é justamente aí que mora o maior risco.
Quanto mais tempo uma criança permanece na escola, maior deveria ser a presença de profissionais preparados para mediar conflitos, acompanhar comportamento, identificar sofrimento emocional e estimular relações saudáveis.
Psicólogos escolares, psicopedagogos, orientadores educacionais e mediadores de convivência deveriam ser parte essencial desse modelo. Mas, na prática, muitas unidades operam sem esse suporte.
A consequência aparece no cotidiano: crianças mais cansadas, emocionalmente sobrecarregadas e com maior dificuldade de lidar com frustrações e convivência social. Especialistas alertam que ambientes escolares sem acompanhamento adequado podem favorecer conflitos recorrentes, exclusão social e episódios de bullying mal mediados.
Isso não significa que a educação integral seja ruim. Pelo contrário. Ela pode ser extraordinária quando oferece esporte, cultura, arte, recreação, acolhimento emocional e profissionais preparados para cuidar da infância em sua totalidade.
O verdadeiro debate não deveria ser sobre colocar ou não crianças em tempo integral. A discussão urgente é outra: que tipo de experiência emocional e cognitiva estamos oferecendo a elas durante tantas horas dentro da escola?
Porque a infância não é apenas tempo ocupado. Infância é desenvolvimento. E desenvolvimento exige cuidado.





